sexta-feira, 27 de abril de 2012

Mega-desastre

Esta semana no Região de Cister:
Descobri uma nova equação que quero partilhar, não é entre a igualdade de duas quantidades, mas entre a igualdade de vários erros. Mega agrupamentos de escolas + mini poupança = mega desastre. Analisando esta equação só podemos perceber que o Ministério da Educação não está a fazer o trabalho que lhe compete.
Afirmei há dias que “mais com menos é igual a menos” e creio que este ensinamento matemático está presente em todas as decisões do atual governo. Estão a agrupar as escolas, estão a diminuir os docentes e a diminuir a qualidade de ensino. Estão a aumentar o número de alunos por turma, insistem em diminuir o investimento para a educação e em diminuir o que faz tanta falta, a boa formação dos jovens.
Muitas vezes interrogo-me, e sei que não sou o único. Porque é que o governo não vê o óbvio? Porque é que não percebe que as medidas que são implementadas/impostas são tão “mega” quanto uma nega(tiva) ao que é plausível para o ensino acontecer? "Queremos agrupar escolas para que o processo educativo seja mais racional, para que haja mais contacto entre os diversos níveis de ensino, e para que tudo funcione de forma mais harmónica". Sim, podem-se rir, é caso para isso. Desculpem a anedota numa coluna séria sobre educação, mas não fui eu que a contei, foi o nosso Ministro da Educação, Nuno Crato. Como é que um aglomerado maior de escolas e de alunos pode funcionar de forma mais “harmónica”?!
Não sou a favor de guerra, de desacatos ou de qualquer tipo de violência, mas não sei se não passará por aí que conseguiremos transmitir uma forte mensagem de revolta à atual tutela. Megas más decisões merecem uma mega revolta. Na medida em que a imposição do que o governo quer não é proveitoso, e só provoca incómodo e mais sacrifícios aos mesmos de sempre, pais, alunos e professores, a contestação é necessária e tem que envolver desobediência.
Nelson Mandela afirma que "a educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através dela que a filha de um camponês se torna médica, que o filho de um mineiro pode chegar a chefe de mina, que um filho de trabalhadores rurais pode chegar a presidente de uma grande nação." Lamento que a parte final desta definição de educação seja uma utopia. Se assim fosse, também poderia dizer que para governar uma “grande nação” seriam precisas as famosas ”cunhas”, os simpáticos “padrinhos” e as constantes mentiras em discursos tão sorridentes.
Em suma, gostava que Nelson Mandela também dissesse a sua definição de “grande nação”, pois adorava dizer que Portugal, apesar dos seus governantes, é uma Grande Nação!

domingo, 18 de março de 2012

Dia do Pai

Num dia normal de aulas, a professora de ensino primário chega à escola e diz:
- Bom dia meninos! Sabem que dia é hoje?
- Sim, professora! É o Dia do Pai.
- Isso mesmo. Acertaram, é o dia em que vocês têm de dar uma especial atenção aos vossos pais. Um beijinho de agradecimento por tudo o que eles vos fazem, um abracinho apertado que lhes mostre que vocês são os melhores filhos do mundo… Aqui na escola, vocês vão fazer um desenho onde coloquem tudo o que vos faça lembrar os vossos pais. Depois das aulas, quando virem o vosso pai, dão-lhe o desenho e vão ver como ele vai ficar feliz.
Uns começaram por desenhar as ferramentas que os pais utilizavam nos seus trabalhos, outros desenhavam certas características físicas dos mesmos e, enquanto os alunos estavam empenhados a desenhar, a professora estava atenta ao seu aluno Francisco. Este não estava a desenhar, mantinha-se obcecado pelo branco da sua folha de papel.
- Francisco… Não fazes o desenho para o teu pai?
- Professora, o meu pai está no céu.
E, neste momento, a professora lembrou-se que o pai do Francisco tinha falecido há dias e que o que todos os adultos lhe tinham dito é que o pai tinha ido para o céu. Normalmente, é o que se diz aos mais novos, se alguém morre, de imediato se diz que determinada pessoa teve de ir para o céu.
- Pois foi Francisco! Mas, lembras-te do teu pai, eu sei que sim, podes pensar nele e no que ele fazia e desenhar o desenho para ele, o que dizes?
- Boa ideia professora! – Responde o Francisco.
Chegando ao final a aula, todos tinham terminado o desenho, incluindo o Francisco, que após o incentivo da professora, rapidamente, terminou a lembrança para o pai.
A felicidade de todos não era indiferente. Eles tinham noção que iriam ver os seus pais felizes. No final do dia, em casa, todos eles entregaram o desenho e deram o abraço apertado que a professora aconselhou a darem.
Com o Francisco foi diferente, ao chegar a casa mostrou o desenho à mãe e disse que era um desenho para lembrar o pai que estava no céu. Neste momento, a mãe criou dentro de si uma ira tão grande, que conseguiu manter aos olhos do pequeno Francisco, mas apenas aos olhos deste, pois a sua raiva transbordava todo e qualquer corpo. A tristeza de ter perdido o pai do seu filho e a ingenuidade do Francisco fizeram com que a mãe, fragilizada com a morte do seu marido, criasse uma fúria enorme dentro de si. Contudo, o Francisco continuava entretido.
- Cuidado Francisco - grita a mãe - tem cuidado com a janela.
- Estou a pôr o desenho do pai no estendal da roupa para ele ver o desenho que eu fiz na escola lá do céu, onde ele está.
Quando ouviu isto, a mãe ficou em silêncio. Mas, durante a noite, a mãe não aguentou! Foi à janela e tirou de lá o desenho feito pelo filho. Num momento de delírio, entre lágrimas, rasgou cada centímetro do desenho. Quando se apercebeu do que tinha feito, não queria acreditar e, de imediato, ligou para o psicólogo que tinha acompanhado a família após a morte do seu marido.
- Boa noite Henrique! – Dizia a mãe chorando e contando toda a história que se tinha passado.
- Não se preocupe e tenha calma. Amanhã de manhã reaja como se não tivesse acontecido nada e, se alguma coisa de anormal acontecer, ligue-me.
De manhã, a mãe já está na cozinha quando o Francisco acorda, e a sua primeira preocupação é em ir ver como está o desenho que fez para o seu pai. Aproximando-se da janela vê que o desenho não está lá e diz:
            - Vês mãe! Eu sabia que o pai vinha buscar o meu desenho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Amor é tudo mais solidariedade.

Quantas vezes ouvimos “A língua portuguesa é muito traiçoeira”? Quantas vezes damos um significado errado a determinada palavra? Quantas vezes uma palavra tem inúmeras conotações, umas vezes positivas e outras tão negativas? Quantas vezes interpretam de uma forma errada o que dizemos? Tantas questões que só afirmam a bem dita frase feita “a língua portuguesa é muito traiçoeira”. Diariamente, somos levados à confusão entre palavras tantas vezes repetidas de uma forma errada e que só com alguma atenção se pode perceber os seus significados.
Analisando as definições de amor e de solidariedade encontro certas questões que me inquietam. Antes de mais, nunca a palavra “amor” pode equiparada à palavra “solidariedade”. Recordo-me de uma definição de solidariedade, da minha professora de Moral, que dizia que solidariedade é “dar sem querer receber nada em troca”. Posto isto, alguma vez a definição de “amor” pode ser similar à do termo “solidariedade”? Claro que não! Voltando a citar Eduardo Sá, “ … Falam do amor como uma espécie de hormona do crescimento, esquecendo que não é verdade que o amor seja um sentimento. Muito menos um bom sentimento, daqueles a que se recorre como se com ele se colorisse todo o universo em tons de pastel. O amor é, antes, uma consensualidade de sentimentos (aquilo que duas pessoas que se comovem trocam sem precisarem de saber como ou porquê) ”. Atento à palavra “trocam”. Amor é, sem dúvida, o que duas pessoas, que se sentem atraídas, fazem para se conquistar, por isso, é importante a “permanente conquista”, pois só assim se consegue manter esta “consensualidade de sentimentos”. A conquista envolve certamente surpresa, exagero, loucura, espírito que diz “é por ela e pelo sorriso dela”, lágrimas, abraços, beijos, pulos, felicidade… E uma quantidade enorme de comportamentos levados a cabo pelo turbilhão de sentimentos/ideias partilhados.
O amor é um dos grandes responsáveis pelo que move o mundo, a par da beleza e do dinheiro. A conquista ou a falta dela, que envolve o amor, é a grande fundadora dos homens e das mulheres que compõem o mundo. Um homem adora sentir-se homem, e as mulheres têm quase toda a responsabilidade para que isso aconteça. Não creio que o contrário seja verdade, daí poder afirmar que os homens precisam das mulheres para serem o que afirmam ser.
Um ser solidário nunca pode admitir que não quer receber nada em troca. O ser humano necessita de sustento emocional e, por isso, é solidário. Não podemos afirmar que receber algo em troca seja sinónimo de receber algo material. Assim, ser solidário é, antes de alguém que não olha para o que dá, é alguém que quer receber tanto um sorriso, como um abraço, ou apenas um “obrigado”, ou seja, não pede mais do que gratidão. Falta tanto sentido de gratidão às pessoas que conheço…
Um dicionário pode ser um simplista no que toca à definição de amor, mas muitas vezes, é assim que devemos de ver o amor: de uma forma muito simples. “Amor s. m. 1. Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracção. 2. Sentimento intenso de atracção entre duas pessoas.   3. Ligação afectiva com outrem, incluindo geralmente também uma ligação de cariz sexual. 4.  Disposição dos afectos:  para querer ou fazer o bem a algo ou alguém. 5.  Grande dedicação ou cuidado. “. Por outro lado, temos “Solidariedade s. f.
1. Qualidade do que é solidário. 2. Dependência mútua. 3. Reciprocidade de obrigações e interesses. 4. Direito de reclamar só para si o que se deve a todos.”
O ponto número dois da definição de solidariedade pode levar-me à definição de amor, mas de uma forma pejorativa. Quando no amor existe dependência mútua, à partida, não estamos a falar de amor, mas sim de uma paixão doentia. Augusto Cury afirma que “A paixão restringe o mundo dos apaixonados, confina-nos num mundo pequeno e particular. Os amigos diminuem, os projectos contraem-se, as relações sociais ficam escassas, a alegria evapora-se, o interesse pelo crescimento profissional perde o deleite. O amor inteligente expande o universo dos amantes, multiplica os amigos, os sonhos as oportunidades, o crescimento pessoal.” Deixar de nutrir o encantamento pela nossa vida por causa de um amor, ou melhor, de uma paixão, é dizimar duas pessoas de uma vez só. A velha máxima, “não trate como prioridade quem o trata como opção” faz muito sentido no que toca a paixões que no final nos levam a concluir que a ingratidão está viva, mas não se recomenda, pois os estragos são irreversíveis. Não fosse viver, desenhar sem borracha. 
Não sei se é inquestionável o valor das palavras, sei que são utilizadas de uma forma banal. Se como diria o poeta “as palavras estão gastas” ainda bem, eu adoro gastá-las, mas bem gastas. Já que é para desperdiçar que se o faça bem feito. Na hora de falar que se pense o que se diz, pois o sentimento que precede as palavras é muito mais determinante do que antecede essas mesmas palavras. Complicamos e tornamos “traiçoeiras” as palavras que são indispensáveis e inevitáveis. Que aumentem as conotações, mas que se aumente, em grande escala, a inteligência que permite interpretar o amor.
Amor é tudo mais solidariedade. Solidariedade é tudo menos amor.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Conto (à) LUZ

Queria contar a luz e não posso. Há dias em que a luz me encadeia de tal forma que se pudesse apaga-la, fá-lo-ia. Será a luz daquele candeeiro igual à luz que me ilumina na rua durante o dia? Acho que não. A luz não é igual e não se distingue apenas do escuro, existem diferentes tipos de luzes. Só não sei se existem vários tipos de escuridão, mas por o que se diz por aí a escuridão é diferente de pessoa para pessoa, e talvez seja, a maldade também não é igual para todos. Só conseguimos ser amigos de alguém até ao momento em que vimos a sua maldade.
A minha filha chama-se Luz e é o meu orgulho. Ilumina-me. Vai comigo de manhã para a escola e pergunta-me se a luz do sol não me encadeia enquanto vou a conduzir, respondo que sim, obviamente, mas reparo que a minha filha repara em todo o tipo de luzes e no que elas nos afectam. Na noite a Luz faz-me querer que é mais uma estrela daquelas que brilha no céu. Não sei se é por ser milha filha, mas deve ser.
A luz natural é tão essencial. A luz do sol e em todos os seus reflexos torna os dias e as noites em locais de pura sensação. No verão o sol irradia o dia da melhor forma. Torna-nos o dia alegre, verve, e optimista de uma boa vida. Ainda no verão, as sombras são o silêncio da luz do sol. Como na música o som é tão importante como o silêncio, na luz, acontece o mesmo, a sombra é tão importante quanto a luz. Na noite do verão as estrelas brilham como se não houvesse amanhã, a lua chama a atenção e os nossos corpos brilham tanto como de dia. A luz no inverno não é menos importante. É mais discreta e mais ténue, mas não menos natural. A sombra das árvores não existe, todos os espaços e ambientes são sombras dos dias menos bons, mas também, dos dias em que devíamos de pensar na nossa vida, e isso não se pode encaixar nos dias menos bons. Os dias em que estamos na sombra também são bons dias. Nas noites de inverno nem sombras existem, existem sim as ressacas das sombras. Estranho? Talvez, mas a fúria e a ausência de luz nas noites de inverno faz com que o pior das sombras da nossa vida se transforme, duplamente, em realidade.
A luz artificial é como a sombra dos dias, ou seja, também é importante para nós. Substitui, não na perfeição, a luz natural. Artificial como a verdade, a luz dá-nos só o que nós precisamos no momento. Jamais, algo artificial sustentará verdadeiramente o nosso ego. Durante o dia, a luz artificial chega onde a luz natural não consegue, mas uma janela aberta para a luz do dia entrar não tem valor comparando com a luz do candeeiro de secretária. A luz artificial é dos melhores elementos de protecção que existe: todas as luzes dos veículos que circulam nas vias rodoviárias, todas as luzes que sinalizam e coordenam estes mesmos veículos, os faróis que indicam aos barcos onde está a costa, e até em muitos reflectores, se contempla a luz artificial e a sua fundamental função para a organização da circulação humana.
A reflexão da luz natural não a torna artificial. Como o meu espelho não altera o que eu sou. Embora, igualmente como o meu espelho, que só mostra uma face minha, a reflexão da luz mostra apenas uma face da luz e, consequentemente, ilumina-nos mal, como o espelho que mostra muito mal o que sou.
            A luz logo de manhã faz me crer que o dia vai ser magnífico. À noite às estrelas dão-me a certeza que a noite é magnífica. É estranho como a escassa luz à noite me dá muito mais certeza do que a luz do dia. Muitas vezes não precisamos de muita luz para sermos alumiados, por vezes, basta a noite afirmar a natureza, que com ela vem atrelada, e a noite acerta em cheio no dia, acabando com o mesmo.
            A minha filha adora a noite, e é estranho, pois tendo ela apenas 6 anos não tem qualquer medo do escuro e não é atingida por todos os medos que assombram as crianças da idade dela, e muitas vezes, até os mais crescidos. Sempre mostrei à pequena infante que a noite é tão importante como o dia. Fiz muitos passeios com ela, apenas com a luz da lua e o brilho dos nossos olhos. Não sei se por coincidência ou não a minha filha chama-se Luz. E, é óbvio, que, sempre que posso, conto-lhe um conto sobre luz. Um conto sobre o seu nome, um conto à luz.
    

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Os recreios da vida…

      As escolas deviam de criar tanto tempo para as salas de aulas como para os recreios. As crianças aprendem enquanto brincam! E os livros arrumam com a paciência dos adolescentes o que faz com que a aprendizagem se torne um massacre, invés de uma brincadeira que os prepare para a vida. Infelizmente, não vejo alunos com saudades de ir para a escola com o motivo de ter aulas, pelo contrário, querem ir para a escola para rever os colegas, para brincarem com eles. Acredito que se a disciplina, a ordem, o respeito reina-se enquanto se ensina a brincar, aprendizagem seria tão completa como aquela que nós temos nos dias de hoje que em nada aproxima os alunos das aulas. 
     Nas escolas diminuiu-se a brincadeira, diminuíram-se os sorrisos e, pior que tudo, diminuíram-se os sorrisos enquanto se brinca. É imperial que os professores façam parte da família alargada das crianças e não permaneçam, apenas, como domadores de pequenos selvagens. Os recreios deviam de existir com os professores e não com a ausência deles. Brincar com quem sabe o jogo da vida só pode dar um bom resultado em aumento do conhecimento dos adolescentes. E por favor, não pensem que se pode brincar sozinho. Brincar sozinho nunca pode ser brincar. Brincar sozinho é uma forma de iludir a falta de brincadeira… Penso que a confusão persista entre “estar entretido” e “estar a brincar”, embora estando a brincar se está entretido, estar entretido não é sinónimo de estar a brincar e muito menos de estar a aprender.
      Eduardo Sá, psicólogo clínico, afirma que “a escola devia de ser onde se descobre que brincar é aprender a dois ou muitos mais, e quem não brinca decora e repete, mas não corrige: reprova.” Uma escola não deve procurar fabricar adultos, mas sim, perpetuar a “idade dos porquês”. E para que esta idade faça sentido, são precisas no mínimo duas pessoas: quem pergunta e quem dá a resposta. Viver é como fazer uma pergunta, isto é, eu faço uma pergunta porque quero uma resposta, obviamente, de outra pessoa. Eu vivo porque quero uma resposta, obviamente, de quem melhor pode viver comigo, e não vejo melhor ser para viver comigo que uma pessoa que me compreenda e que queira também viver.
     Continuando embalado em palavras de Eduardo Sá, lembro-me de ouvir: “Desculpem o desabafo, mas devíamos fechar a educação para obras, para balanço, para mudança de ramo ou para trespasse. Seja para o que for, tudo será melhor do que este «vai-se andando» que entontece e nos magoa”. Para mim, este é um comentário preocupante e que procura alertar o país para os problemas da educação, mais que isso, procura mostrar que a aprendizagem, e a forma como esta se processa, precisa de muita mais atenção para que possa surgir uma mudança favorável numa das áreas mais importantes de qualquer país: a educação.
      A ideia que o trabalho das crianças é estudar está completamente errada. Antes de mais, porque as crianças não têm que trabalhar, e estudar não pode ser um trabalho para as crianças. Depois, as crianças, para além, de não terem que trabalhar, têm é que aprender de uma forma menos difícil, como por exemplo, a brincar. As crianças são bombardeadas com muito trabalho que não lhes mostra onde estas estão erradas, ao contrário do que acontece nos jogos do recreio. Para além, de lhes mostrar o que está errado, mostra-lhes que os outros também erram, pois, muitas vezes, “os professores mostram que acertar é apenas exigível aos alunos”, como diria Eduardo Sá.  
     Concluo, pedindo que se brinque mais. Que se ensine a brincar em prol de maior conhecimento e de jovens cada vez mais cultos e autónomos. A vida tem que ser bem aproveitada e, para isso, é necessário que se aprenda a viver melhor nos poucos recreios que a vida tem.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Dura praxis sed praxis

     Todas as praxes académicas são necessárias e indispensáveis se forem aplicadas com bom senso e racionalmente. Processos crime são igualmente necessários e indispensáveis quando a praxe académica deixa de ser o que é e transborda até aos danos físicos e psicológicos graves.
     Fui alvo de diferentes tipos de praxe e em cidades diferentes, isto é, estive submetido a praxes em Portalegre e na Covilhã. Vi abusos, denunciei alguns deles, compreendi outros, embora nenhum me fez abandonar o meu estatuto de caloiro. Considero imprescindível existir um momento de praxe académica, talvez, mais controlada. A praxe permitiu-me conhecer mais pessoas num mês e meio do que em toda a minha vida, convivi com pessoas totalmente diferentes de mim que noutra circunstância, dificilmente, conviveria, ao conhecer “veteranos”, ou para outras cidades “doutores”, ou ainda para a minha, por exemplo, “grão-mestres” tive ajuda e ouvi muitos conselhos sobre o curso onde tinha acabado de entrar e não sabia bem o que podia esperar. Tudo isto foi importante e sim, é verdade, tive de lhes conhecer as cores do seu calçado sempre que me pediam para olhar para o chão, mas por outro lado foi bom começar a perceber que mais uns anos e quando começar a trabalhar, existirá um patronato muito mais humilhante do que estes colegas, apenas mais velhos.
     As praxes surgiram há alguns séculos com um objetivo totalmente diferente do que existe hoje, mas sempre com os mesmos métodos. No que toca à tradição considero que esta não deve acabar, mas sim adaptar-se aos direitos e deveres de todos os intervenientes nas praxes académicas. Agora, no momento em que cada vez mais ouvimos gritos para tentar acabar com as praxes, espero que os gritos das associações académicas sejam muito mais intensos. No entanto, existir um órgão nacional regulador das praxes também seria proveitoso, para que todos os alunos suportem as praxes e, assim, se adaptem da melhor maneira, pois um dos objetivos das praxes é a adaptação e integração a tudo o que existe de novo para os adolescentes que ingressam no Ensino Superior. Quando falamos em escolas básicas e secundárias, considero que as praxes nestas escolas sejam totalmente abolidas, pois são conduzidas por menores sem qualquer orientação.
     A resiliência adquirida nas praxes é, sem dúvida, um canto académico que conduz a uma melhor integração e adaptação à maior mudança na vida de um aluno até esta etapa do seu percurso. Dura praxis, sed praxis - "A praxe é dura, mas é a praxe" é um dos lemas das praxes académicas de muitas universidades do nosso país e acrescento: “a praxe é dura, mas é a praxe” que, respeitando, faz todo o sentido existir.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Carta de Suicídio

     Matei-me. Agora dizem-me na rua que fiz mal, que tinha tanto para viver… Mais uma vez tudo contra mim. Eu matei-me porque nunca ninguém estava de acordo comigo, e depois de morrer continua tudo na mesma. É demais. A minha vida foi uma limonada com muito pouco açúcar. Ainda hoje me arrepio e fecho os olhos para conseguir engolir tudo o que me matou. Porque eu não me matei, os outros é que me mataram, o que é diferente. Só espero que tenham lido a carta que lhes deixei lá na Terra, estava muito bem escrita, inspirei-me para escrever a minha carta de suicídio…
    Quis deixar bem claro porque me vim embora, sim, porque esta viagem está a ser agradável, só não sei para onde vou, mas qualquer coisa será melhor do que aquele mundo impróprio para habitar. Tive momentos de felicidade, é verdade, mas ou estava embriagado ou tinha ganho algo nas raspadinhas que comprava todos os dias e, de vez em quando, lá recebia algum dinheiro. Não deixei de referir todos os pormenores acerca da minha vinda para este mundo. Disse inclusive que até a minha mãe merecia que eu me matasse. Tendo uma mãe facilmente influenciável, o que esta ouvia na rua considerava verdade, e isso assustava-me. Entretanto, já não tinha uma mãe tinha um inimigo. Eu não me importo com o que os outros pensam ou dizem, quando é mentira quase sempre ignoro, mas tenho gosto que pensem o que é verdade. Dizem que “há gostos para tudo”e eu tenho este gosto de querer que as pessoas pensem o que é verdade. Normalmente, a população não pensa, e quando pensa é mentira. Não tenho que mostrar nada a ninguém, sempre tive muito orgulho, mas quem me vê tem que ver a verdade que existe e não o que é mentira. Nunca escondi nada, pois esconder só aumenta a mentira, mas veja-se, se é difícil a minha mãe acreditar em mim, imagine-se as outras pessoas.
     A minha carta de suicídio começava assim:
    “ Antes de mais, não pensem que alguém me matou, pois isso é mentira. Embora eu tivesse poucos amigos, e muitos inimigos me desejassem ver morto, ninguém me matou. Não podia dar esta oportunidade a quem já tanto de mata dia para dia, por isso decidi matar-me. Não pensem que foi doloroso ao pé do que eu sofri durante toda a minha vida. Ao meu pai mataram-no e fizeram o que queriam dele, quanto a mim fizeram o que bem queriam, mas não me mataram.
    À minha mãe quero dizer que agora não vale a pena chorar. Chorar a rir devia ela fazer se não acreditasse naquelas mentiras todas que lhe diziam sobre mim. Dedico este suicídio a todos os que me odiaram. Àqueles que me fizeram sentir com um nó na garganta quando não sabia o que dizer, àqueles que me fizeram sentir um tornado na barriga quando me atacaram com mentiras impiedosas e mais, quando sabiam que elas o eram, àqueles que me esmagaram o coração quando falavam do meu pai como se de um delinquente se tratasse.” O meu pai dizia muitas vezes e com toda a razão, “as pessoas da nossa família são tão boas como más, isto está provado com os nossos antepassados e, como tu sabes, nós somos muito bons para quem nos faz bem”, eu concordava completamente, eu sentia-o. Eu era exactamente como meu pai, tínhamos uma personalidade muito forte e, creio, que isso não chocasse bem com outras personalidades parecidas. A minha cabeça durante anos era como uma poça de água que era violentamente dispersa quando um carro lhe passava por cima. E passaram por cima de mim vezes sem conta, dispersaram a minha cabeça centenas de vezes até se sentirem saciados.
     Continuando com a minha carta de suicídio:
     “Eu não era uma pessoa feia e isso fez com que tivesse algumas relações com muitas mulheres – nunca ao mesmo tempo, fique claro – e talvez este seja o único ponto em que as pessoas acertavam sobre mim, realmente, as relações a dois que eu tive não eram poucas. Mas a minha sorte até com mulheres estava arruinada, a maior parte só me extorquia prendas e dinheiro, outras pensavam que eu era seu empregado e outras traíram-me mil vezes até eu dar por isso. Cheguei a matar dois homens por causa disso, admito. Às mulheres nunca lhes toquei violentamente. Agora que escrevo reparo que até tenho jeito para escrever cartas de suicídio. Gostava de não me matar só para dizer às pessoas que tenho jeito para escrever o que elas me faziam.”
     Na escola nunca fui bem-vindo. Era daqueles alunos que os professores diziam logo na aula de apresentação que “tinha uma cara que não enganava ninguém”. As notas não eram excelentes, mas também não eram más. No entanto, os professores insistiam sempre em me meter aos cuidados de uma psicóloga por causa do mau comportamento, mas a falta de compreensão por parte de todos também não ajudava em nada, os professores viam um mau aluno, os pais viam um mau filho, os meus patrões sempre viram um mau empregado, só os amigos verdadeiros é que quase sempre viram um bom amigo. Chego a pensar se o mal estava mesmo em mim, mas não acredito. Eu era bom, os meus amigos comprovavam isso mesmo!
     Ainda me lembro de quando estive doente, tinha a minha saúde por um fio, os médicos diziam para eu ter calma que tudo se ia resolver, mas como deixei de acreditar nas pessoas isso custava-me a crer, contudo, eles tinham razão. Porém, nessa altura nem a minha mãe esteve ao meu lado a apoiar-me e a dar me conforto. Ali pairava eu numa cama de hospital, tão pálido que parecia ter o reflexo da bata dos médicos na minha cara.
     A minha carta de suicídio não ficou por ali, para terminar ainda deixei bem claro que me matava de consciência limpa:
     “Sei que a carpete não vai ficar muito limpa depois de eu me matar e, por isso, peço desculpa, mas podem ficar cientes que a minha consciência está, ao contrário da carpete, muito limpa. Jamais poderia querer uma morte dolorosa, assim dar-vos-ia razões para dizerem: “cá se fazem, cá se pagam”. Quero despedir-me com nobreza, com elegância, com subtileza, com tudo aquilo que nunca viram em mim e que eu sempre prezei em manter. Digo ADEUS, e um adeus custa sempre ouvir, pelo menos a mim custava. Odiava ouvir a palavra adeus, transmitia-me distância e frieza. E é com essas emoções que digo, bem alto, com a voz bem limpa e clara: ADEUS. Detestei conhecer-vos. A melhor das atenções: João Miguel.”
     Não foi difícil, pensei que fosse pior. Agora aqui em cima (acho que estou em cima do que deixei na Terra) estou consciente disso. Matar-me fez-me bem. Ainda não me arrependi de o ter feito e quando convivia com aqueles seres desumanos arrependia-me de quase tudo o que fazia. As pessoas, por vezes, e muitas mais do que as que esperamos, têm o dom de nos fazer arrepender do que com tanta entrega fazemos.
     Agora gostava de saber onde estou. Esta dúvida dá cabo de mim, mas se morri, como diziam lá na Terra, devo estar no paraíso ou no inferno, ou ainda, em nenhum destes locais. Não sei onde estou, sei que não estou na Terra, e isso dá-me uma felicidade enorme como nunca senti em espaços térreos.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Uma poça de mel

     “ … Falam do amor como uma espécie de hormona do crescimento, esquecendo que não é verdade que o amor seja um sentimento. Muito menos um bom sentimento, daqueles a que se recorre como se com ele se colorisse todo o universo em tons de pastel. O amor é, antes, uma consensualidade de sentimentos (aquilo que duas pessoas que se comovem trocam sem precisarem de saber como ou porquê) ” começo a escrever balançado por um excerto da obra “Chega-te a mim e deixa-te estar” de Eduardo Sá. Como sempre, comungo a opinião deste meu mestre e sendo assim tenho que lembrar mais um dos problemas do mundo: a falta de partilha de sentimentos verdadeiros, gestos ternurentos, palavras sérias, sonhos amplificados.
      As pessoas devem mesmo pensar que tudo o que lhes pertence e lhes dá vida só é recordado se for bem guardado dentro delas, não entendem que é compartilhando que se forma vida, que se forma amor. Porque viver é amar. Considero que na escola temos amado muito pouco. O local onde mais se deve amar, ou melhor, partilhar, por exemplo, conhecimentos, está doente… Precisa de cuidados intensivos, não é caso para dramatizar, mas é caso para começar a ter muito cuidado com o contágio.
     A ideia que a vida é tão efémera devia estar presente nos nossos dias para não complicarmos tudo a pensar em problemas que parecem exercícios acrobáticos inimagináveis de fazer. Passamos os nossos dias a esmagar o tempo, a desperdiçá-lo com tudo menos com o importante. Precisamos de dias verves, cheios de paixão, sorrisos, exageros, choques, surpresas. Tudo isto sem ilusão nenhuma, é a consciência que nos pode levar a sentir o quão bom é tudo o que nos rodeia. Não me admiro que dia menos dia se instaure uma ideia de carência que nos leve a implorar o que realmente precisamos. Seria de louvar começar a substituir o “Procura-se: CASA” por “Procura-se: ACONCHEGO”, ou por “Procura-se: ABRAÇOS”, ou até mais completo por “Procura-se: Alguém dador de AMOR”… Difícil seria encontrar a palavra “ofereço”, porém talvez alguém vá longe demais para poder ficar bem perto do que deseja.
      Falta valorizarem-nos em tudo o que somos e fazemos, pois isso contribuía para que tudo fosse melhor e para que os “adeus” diminuíssem. Falta respirar quando dizemos um “adeus”. Falta abraçar quando temos que dizer “adeus” e não conseguimos. Falta arrojar o corpo nu pelo chão quando, chorando, dizemos “adeus”. Falta deixar de dizer “adeus”… Tantos põem o valor longe e tão poucos, de perto, e sem dizer “adeus”, valorizam. Um “adeus” é uma negação à linguagem que deve ser mantida de forma coesa para que não se torne um obstáculo ao conhecimento … Só a linguagem que vem do coração consegue ser verdadeira e sentida por nós.
     Estamos na idade da força de libertação, não a podemos recusar. Cabe aos adultos não censurar cada dia da nossa vida de adolescentes. Cada dia de loucura que chega ao coração de todos nós guardando tudo o que mais tarde queremos recordar com um dos maiores prazeres, sem dizer “adeus” ao passado, pois recordar é viver.
     Sem querer dizer adeus e querendo libertar-me como um louco lúcido, peço que se libertem e que por momentos sejam uma poça de mel. Exageradamente doce e liberta como qualquer poça…
     Se vos sentir, sintam-me!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Outro dia para substituir este.

      - Três shots pago eu.
     - Mais cinco shots dos fortes, desta pago eu… E Chegamos ao final da noite a pedir só um, mas só um, impulso para poder libertar todo o álcool que temos dentro de nós. Mas recuando umas horas, antes de chegar à hora de pedir o impulso, a noite é nossa, reinamos sem qualquer limitação espacial ou temporal. E isso é bom. E com alguma sorte, às vezes estas noites fazem-nos bem, são uma massagem corporal que liberta todas as toxinas e mais algumas que temos acumuladas. Não nos podemos esquecer é que absorvemos outras tantas toxinas e não só que não são, propriamente, saudáveis, mas que, com termo e medida, fazem parte da vida.
     Temos que estar sempre disponíveis para as oportunidades que a vida nos dá, e aproveitar uma noite com amigos é uma oportunidade muito boa, e muito poucas razões existem para que se diga “não” a uma oportunidade como esta. A vida está para quem está para ela, disso ninguém me tira a certeza. A diversão é tão, ou mais, precisa, do que o trabalho e o descanso. Embora, para que o trabalho fique bem feito, até o descanso é mais importante.
      No entanto, depois de uma grande noite, existe uma grande ressaca. Indo ao dicionário, reparo na definição desta palavra: “1. fig. Falta de estabilidade 2. Mal-estar em consequência do consumo de bebidas alcoólicas ou de drogas.” Quanto à falta de estabilidade faz algum sentido, mas não no dia a seguir à grande noite, mas sim, na grande noite. Pois na noite da diversão, com muito álcool à mistura, a nossa estabilidade vai-nos faltar de certeza. Parece que as placas tectónicas vão nos levar para outra parte do planeta e exercem sobre nós uma força que não nos permite manter de pé.
      Dor de cabeça, má disposição, uma sede louca, uma enorme vontade de silenciar o mundo e de reduzir a luminosidade que incomoda qualquer olhar, ódio há palavra “álcool”, fraqueza, dificuldade de concentração, pois só conseguimo-nos concentrar numa boa almofada, são os sintomas que sinto quando estou de ressaca. É mau? É, sem dúvida, às vezes, custa a curar, outras vezes não é preciso muitos cuidados. Contudo, quando estamos com uma ressaca forte dava jeito poder activar o vento, para que este levasse a pessoa que durante a ressaca se apoderou de nós. É que, para todos os efeitos, parecemos outra pessoa, outro corpo, outra mente. Nestes dias, não podem exigir muito de nós. Os sorrisos são quase todos forçados. Há momentos em que o sorriso não dá para mais e tem de ser suave.
      A vida dá tudo para a que possas entender. Há quem demore mais tempo a perceber o que a vida lhe estar a dar, mas quem me preocupa é quem nunca chega a perceber o que a vida lhe dá. Tenho pena dessas pessoas. Lamento.
       Há dias em que as ressacas são importantes, para olharmos de outra forma para a vida, com mais calma, com mais moderação e, infelizmente, também com algum enjoo que faz-nos ver que a vida não é feita de histórias de encantar.
     Há pessoas que parece que estão sempre de ressaca. Há pessoas que fazem questão de inventar ressacas de tudo o que lhes acontece na vida. Há dias em que as pessoas não deviam sequer de sair à rua. Há dias em que a vontade é de pedir outro dia para substituir este.

Transpiração Mental

      Dou início ao blogue que terá de sentir a minha transpiração mental quando eu bem entender. Não se trata de um comportamento autoritário, trata-se sim, de uma vontade de demonstrar ao mundo que o cheiro deste tipo de transpiração é bem melhor que o cheiro da transpiração corporal.
      Esta não nos põe de braço no ar e tentar cheirar a axila. Esta não nos causa o transtorno de termos que mudar de roupa tantas vezes. Esta é a transpiração que faz falta. Serei muito assíduo na publicação de conteúdos linguísticos para que não deixem de sentir este odor.
     Não sei se estas transpirações têm semelhanças, contudo, espero um dia que esta dúvida me ponha transpirar mentalmente.

     Bem-haja.