Matei-me. Agora dizem-me na rua que fiz mal, que tinha tanto para viver… Mais uma vez tudo contra mim. Eu matei-me porque nunca ninguém estava de acordo comigo, e depois de morrer continua tudo na mesma. É demais. A minha vida foi uma limonada com muito pouco açúcar. Ainda hoje me arrepio e fecho os olhos para conseguir engolir tudo o que me matou. Porque eu não me matei, os outros é que me mataram, o que é diferente. Só espero que tenham lido a carta que lhes deixei lá na Terra, estava muito bem escrita, inspirei-me para escrever a minha carta de suicídio…
Quis deixar bem claro porque me vim embora, sim, porque esta viagem está a ser agradável, só não sei para onde vou, mas qualquer coisa será melhor do que aquele mundo impróprio para habitar. Tive momentos de felicidade, é verdade, mas ou estava embriagado ou tinha ganho algo nas raspadinhas que comprava todos os dias e, de vez em quando, lá recebia algum dinheiro. Não deixei de referir todos os pormenores acerca da minha vinda para este mundo. Disse inclusive que até a minha mãe merecia que eu me matasse. Tendo uma mãe facilmente influenciável, o que esta ouvia na rua considerava verdade, e isso assustava-me. Entretanto, já não tinha uma mãe tinha um inimigo. Eu não me importo com o que os outros pensam ou dizem, quando é mentira quase sempre ignoro, mas tenho gosto que pensem o que é verdade. Dizem que “há gostos para tudo”e eu tenho este gosto de querer que as pessoas pensem o que é verdade. Normalmente, a população não pensa, e quando pensa é mentira. Não tenho que mostrar nada a ninguém, sempre tive muito orgulho, mas quem me vê tem que ver a verdade que existe e não o que é mentira. Nunca escondi nada, pois esconder só aumenta a mentira, mas veja-se, se é difícil a minha mãe acreditar em mim, imagine-se as outras pessoas.
A minha carta de suicídio começava assim:
“ Antes de mais, não pensem que alguém me matou, pois isso é mentira. Embora eu tivesse poucos amigos, e muitos inimigos me desejassem ver morto, ninguém me matou. Não podia dar esta oportunidade a quem já tanto de mata dia para dia, por isso decidi matar-me. Não pensem que foi doloroso ao pé do que eu sofri durante toda a minha vida. Ao meu pai mataram-no e fizeram o que queriam dele, quanto a mim fizeram o que bem queriam, mas não me mataram.
À minha mãe quero dizer que agora não vale a pena chorar. Chorar a rir devia ela fazer se não acreditasse naquelas mentiras todas que lhe diziam sobre mim. Dedico este suicídio a todos os que me odiaram. Àqueles que me fizeram sentir com um nó na garganta quando não sabia o que dizer, àqueles que me fizeram sentir um tornado na barriga quando me atacaram com mentiras impiedosas e mais, quando sabiam que elas o eram, àqueles que me esmagaram o coração quando falavam do meu pai como se de um delinquente se tratasse.” O meu pai dizia muitas vezes e com toda a razão, “as pessoas da nossa família são tão boas como más, isto está provado com os nossos antepassados e, como tu sabes, nós somos muito bons para quem nos faz bem”, eu concordava completamente, eu sentia-o. Eu era exactamente como meu pai, tínhamos uma personalidade muito forte e, creio, que isso não chocasse bem com outras personalidades parecidas. A minha cabeça durante anos era como uma poça de água que era violentamente dispersa quando um carro lhe passava por cima. E passaram por cima de mim vezes sem conta, dispersaram a minha cabeça centenas de vezes até se sentirem saciados.
Continuando com a minha carta de suicídio:
“Eu não era uma pessoa feia e isso fez com que tivesse algumas relações com muitas mulheres – nunca ao mesmo tempo, fique claro – e talvez este seja o único ponto em que as pessoas acertavam sobre mim, realmente, as relações a dois que eu tive não eram poucas. Mas a minha sorte até com mulheres estava arruinada, a maior parte só me extorquia prendas e dinheiro, outras pensavam que eu era seu empregado e outras traíram-me mil vezes até eu dar por isso. Cheguei a matar dois homens por causa disso, admito. Às mulheres nunca lhes toquei violentamente. Agora que escrevo reparo que até tenho jeito para escrever cartas de suicídio. Gostava de não me matar só para dizer às pessoas que tenho jeito para escrever o que elas me faziam.”
Na escola nunca fui bem-vindo. Era daqueles alunos que os professores diziam logo na aula de apresentação que “tinha uma cara que não enganava ninguém”. As notas não eram excelentes, mas também não eram más. No entanto, os professores insistiam sempre em me meter aos cuidados de uma psicóloga por causa do mau comportamento, mas a falta de compreensão por parte de todos também não ajudava em nada, os professores viam um mau aluno, os pais viam um mau filho, os meus patrões sempre viram um mau empregado, só os amigos verdadeiros é que quase sempre viram um bom amigo. Chego a pensar se o mal estava mesmo em mim, mas não acredito. Eu era bom, os meus amigos comprovavam isso mesmo!
Ainda me lembro de quando estive doente, tinha a minha saúde por um fio, os médicos diziam para eu ter calma que tudo se ia resolver, mas como deixei de acreditar nas pessoas isso custava-me a crer, contudo, eles tinham razão. Porém, nessa altura nem a minha mãe esteve ao meu lado a apoiar-me e a dar me conforto. Ali pairava eu numa cama de hospital, tão pálido que parecia ter o reflexo da bata dos médicos na minha cara.
A minha carta de suicídio não ficou por ali, para terminar ainda deixei bem claro que me matava de consciência limpa:
“Sei que a carpete não vai ficar muito limpa depois de eu me matar e, por isso, peço desculpa, mas podem ficar cientes que a minha consciência está, ao contrário da carpete, muito limpa. Jamais poderia querer uma morte dolorosa, assim dar-vos-ia razões para dizerem: “cá se fazem, cá se pagam”. Quero despedir-me com nobreza, com elegância, com subtileza, com tudo aquilo que nunca viram em mim e que eu sempre prezei em manter. Digo ADEUS, e um adeus custa sempre ouvir, pelo menos a mim custava. Odiava ouvir a palavra adeus, transmitia-me distância e frieza. E é com essas emoções que digo, bem alto, com a voz bem limpa e clara: ADEUS. Detestei conhecer-vos. A melhor das atenções: João Miguel.”
Não foi difícil, pensei que fosse pior. Agora aqui em cima (acho que estou em cima do que deixei na Terra) estou consciente disso. Matar-me fez-me bem. Ainda não me arrependi de o ter feito e quando convivia com aqueles seres desumanos arrependia-me de quase tudo o que fazia. As pessoas, por vezes, e muitas mais do que as que esperamos, têm o dom de nos fazer arrepender do que com tanta entrega fazemos.
Agora gostava de saber onde estou. Esta dúvida dá cabo de mim, mas se morri, como diziam lá na Terra, devo estar no paraíso ou no inferno, ou ainda, em nenhum destes locais. Não sei onde estou, sei que não estou na Terra, e isso dá-me uma felicidade enorme como nunca senti em espaços térreos.
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