terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Conto (à) LUZ

Queria contar a luz e não posso. Há dias em que a luz me encadeia de tal forma que se pudesse apaga-la, fá-lo-ia. Será a luz daquele candeeiro igual à luz que me ilumina na rua durante o dia? Acho que não. A luz não é igual e não se distingue apenas do escuro, existem diferentes tipos de luzes. Só não sei se existem vários tipos de escuridão, mas por o que se diz por aí a escuridão é diferente de pessoa para pessoa, e talvez seja, a maldade também não é igual para todos. Só conseguimos ser amigos de alguém até ao momento em que vimos a sua maldade.
A minha filha chama-se Luz e é o meu orgulho. Ilumina-me. Vai comigo de manhã para a escola e pergunta-me se a luz do sol não me encadeia enquanto vou a conduzir, respondo que sim, obviamente, mas reparo que a minha filha repara em todo o tipo de luzes e no que elas nos afectam. Na noite a Luz faz-me querer que é mais uma estrela daquelas que brilha no céu. Não sei se é por ser milha filha, mas deve ser.
A luz natural é tão essencial. A luz do sol e em todos os seus reflexos torna os dias e as noites em locais de pura sensação. No verão o sol irradia o dia da melhor forma. Torna-nos o dia alegre, verve, e optimista de uma boa vida. Ainda no verão, as sombras são o silêncio da luz do sol. Como na música o som é tão importante como o silêncio, na luz, acontece o mesmo, a sombra é tão importante quanto a luz. Na noite do verão as estrelas brilham como se não houvesse amanhã, a lua chama a atenção e os nossos corpos brilham tanto como de dia. A luz no inverno não é menos importante. É mais discreta e mais ténue, mas não menos natural. A sombra das árvores não existe, todos os espaços e ambientes são sombras dos dias menos bons, mas também, dos dias em que devíamos de pensar na nossa vida, e isso não se pode encaixar nos dias menos bons. Os dias em que estamos na sombra também são bons dias. Nas noites de inverno nem sombras existem, existem sim as ressacas das sombras. Estranho? Talvez, mas a fúria e a ausência de luz nas noites de inverno faz com que o pior das sombras da nossa vida se transforme, duplamente, em realidade.
A luz artificial é como a sombra dos dias, ou seja, também é importante para nós. Substitui, não na perfeição, a luz natural. Artificial como a verdade, a luz dá-nos só o que nós precisamos no momento. Jamais, algo artificial sustentará verdadeiramente o nosso ego. Durante o dia, a luz artificial chega onde a luz natural não consegue, mas uma janela aberta para a luz do dia entrar não tem valor comparando com a luz do candeeiro de secretária. A luz artificial é dos melhores elementos de protecção que existe: todas as luzes dos veículos que circulam nas vias rodoviárias, todas as luzes que sinalizam e coordenam estes mesmos veículos, os faróis que indicam aos barcos onde está a costa, e até em muitos reflectores, se contempla a luz artificial e a sua fundamental função para a organização da circulação humana.
A reflexão da luz natural não a torna artificial. Como o meu espelho não altera o que eu sou. Embora, igualmente como o meu espelho, que só mostra uma face minha, a reflexão da luz mostra apenas uma face da luz e, consequentemente, ilumina-nos mal, como o espelho que mostra muito mal o que sou.
            A luz logo de manhã faz me crer que o dia vai ser magnífico. À noite às estrelas dão-me a certeza que a noite é magnífica. É estranho como a escassa luz à noite me dá muito mais certeza do que a luz do dia. Muitas vezes não precisamos de muita luz para sermos alumiados, por vezes, basta a noite afirmar a natureza, que com ela vem atrelada, e a noite acerta em cheio no dia, acabando com o mesmo.
            A minha filha adora a noite, e é estranho, pois tendo ela apenas 6 anos não tem qualquer medo do escuro e não é atingida por todos os medos que assombram as crianças da idade dela, e muitas vezes, até os mais crescidos. Sempre mostrei à pequena infante que a noite é tão importante como o dia. Fiz muitos passeios com ela, apenas com a luz da lua e o brilho dos nossos olhos. Não sei se por coincidência ou não a minha filha chama-se Luz. E, é óbvio, que, sempre que posso, conto-lhe um conto sobre luz. Um conto sobre o seu nome, um conto à luz.
    

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