As escolas deviam de criar tanto tempo para as salas de aulas como para os recreios. As crianças aprendem enquanto brincam! E os livros arrumam com a paciência dos adolescentes o que faz com que a aprendizagem se torne um massacre, invés de uma brincadeira que os prepare para a vida. Infelizmente, não vejo alunos com saudades de ir para a escola com o motivo de ter aulas, pelo contrário, querem ir para a escola para rever os colegas, para brincarem com eles. Acredito que se a disciplina, a ordem, o respeito reina-se enquanto se ensina a brincar, aprendizagem seria tão completa como aquela que nós temos nos dias de hoje que em nada aproxima os alunos das aulas.
Nas escolas diminuiu-se a brincadeira, diminuíram-se os sorrisos e, pior que tudo, diminuíram-se os sorrisos enquanto se brinca. É imperial que os professores façam parte da família alargada das crianças e não permaneçam, apenas, como domadores de pequenos selvagens. Os recreios deviam de existir com os professores e não com a ausência deles. Brincar com quem sabe o jogo da vida só pode dar um bom resultado em aumento do conhecimento dos adolescentes. E por favor, não pensem que se pode brincar sozinho. Brincar sozinho nunca pode ser brincar. Brincar sozinho é uma forma de iludir a falta de brincadeira… Penso que a confusão persista entre “estar entretido” e “estar a brincar”, embora estando a brincar se está entretido, estar entretido não é sinónimo de estar a brincar e muito menos de estar a aprender.
Eduardo Sá, psicólogo clínico, afirma que “a escola devia de ser onde se descobre que brincar é aprender a dois ou muitos mais, e quem não brinca decora e repete, mas não corrige: reprova.” Uma escola não deve procurar fabricar adultos, mas sim, perpetuar a “idade dos porquês”. E para que esta idade faça sentido, são precisas no mínimo duas pessoas: quem pergunta e quem dá a resposta. Viver é como fazer uma pergunta, isto é, eu faço uma pergunta porque quero uma resposta, obviamente, de outra pessoa. Eu vivo porque quero uma resposta, obviamente, de quem melhor pode viver comigo, e não vejo melhor ser para viver comigo que uma pessoa que me compreenda e que queira também viver.
Continuando embalado em palavras de Eduardo Sá, lembro-me de ouvir: “Desculpem o desabafo, mas devíamos fechar a educação para obras, para balanço, para mudança de ramo ou para trespasse. Seja para o que for, tudo será melhor do que este «vai-se andando» que entontece e nos magoa”. Para mim, este é um comentário preocupante e que procura alertar o país para os problemas da educação, mais que isso, procura mostrar que a aprendizagem, e a forma como esta se processa, precisa de muita mais atenção para que possa surgir uma mudança favorável numa das áreas mais importantes de qualquer país: a educação.
A ideia que o trabalho das crianças é estudar está completamente errada. Antes de mais, porque as crianças não têm que trabalhar, e estudar não pode ser um trabalho para as crianças. Depois, as crianças, para além, de não terem que trabalhar, têm é que aprender de uma forma menos difícil, como por exemplo, a brincar. As crianças são bombardeadas com muito trabalho que não lhes mostra onde estas estão erradas, ao contrário do que acontece nos jogos do recreio. Para além, de lhes mostrar o que está errado, mostra-lhes que os outros também erram, pois, muitas vezes, “os professores mostram que acertar é apenas exigível aos alunos”, como diria Eduardo Sá.
Concluo, pedindo que se brinque mais. Que se ensine a brincar em prol de maior conhecimento e de jovens cada vez mais cultos e autónomos. A vida tem que ser bem aproveitada e, para isso, é necessário que se aprenda a viver melhor nos poucos recreios que a vida tem.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Dura praxis sed praxis
Todas as praxes académicas são necessárias e indispensáveis se forem aplicadas com bom senso e racionalmente. Processos crime são igualmente necessários e indispensáveis quando a praxe académica deixa de ser o que é e transborda até aos danos físicos e psicológicos graves.
Fui alvo de diferentes tipos de praxe e em cidades diferentes, isto é, estive submetido a praxes em Portalegre e na Covilhã. Vi abusos, denunciei alguns deles, compreendi outros, embora nenhum me fez abandonar o meu estatuto de caloiro. Considero imprescindível existir um momento de praxe académica, talvez, mais controlada. A praxe permitiu-me conhecer mais pessoas num mês e meio do que em toda a minha vida, convivi com pessoas totalmente diferentes de mim que noutra circunstância, dificilmente, conviveria, ao conhecer “veteranos”, ou para outras cidades “doutores”, ou ainda para a minha, por exemplo, “grão-mestres” tive ajuda e ouvi muitos conselhos sobre o curso onde tinha acabado de entrar e não sabia bem o que podia esperar. Tudo isto foi importante e sim, é verdade, tive de lhes conhecer as cores do seu calçado sempre que me pediam para olhar para o chão, mas por outro lado foi bom começar a perceber que mais uns anos e quando começar a trabalhar, existirá um patronato muito mais humilhante do que estes colegas, apenas mais velhos.
As praxes surgiram há alguns séculos com um objetivo totalmente diferente do que existe hoje, mas sempre com os mesmos métodos. No que toca à tradição considero que esta não deve acabar, mas sim adaptar-se aos direitos e deveres de todos os intervenientes nas praxes académicas. Agora, no momento em que cada vez mais ouvimos gritos para tentar acabar com as praxes, espero que os gritos das associações académicas sejam muito mais intensos. No entanto, existir um órgão nacional regulador das praxes também seria proveitoso, para que todos os alunos suportem as praxes e, assim, se adaptem da melhor maneira, pois um dos objetivos das praxes é a adaptação e integração a tudo o que existe de novo para os adolescentes que ingressam no Ensino Superior. Quando falamos em escolas básicas e secundárias, considero que as praxes nestas escolas sejam totalmente abolidas, pois são conduzidas por menores sem qualquer orientação.
A resiliência adquirida nas praxes é, sem dúvida, um canto académico que conduz a uma melhor integração e adaptação à maior mudança na vida de um aluno até esta etapa do seu percurso. Dura praxis, sed praxis - "A praxe é dura, mas é a praxe" é um dos lemas das praxes académicas de muitas universidades do nosso país e acrescento: “a praxe é dura, mas é a praxe” que, respeitando, faz todo o sentido existir.
Fui alvo de diferentes tipos de praxe e em cidades diferentes, isto é, estive submetido a praxes em Portalegre e na Covilhã. Vi abusos, denunciei alguns deles, compreendi outros, embora nenhum me fez abandonar o meu estatuto de caloiro. Considero imprescindível existir um momento de praxe académica, talvez, mais controlada. A praxe permitiu-me conhecer mais pessoas num mês e meio do que em toda a minha vida, convivi com pessoas totalmente diferentes de mim que noutra circunstância, dificilmente, conviveria, ao conhecer “veteranos”, ou para outras cidades “doutores”, ou ainda para a minha, por exemplo, “grão-mestres” tive ajuda e ouvi muitos conselhos sobre o curso onde tinha acabado de entrar e não sabia bem o que podia esperar. Tudo isto foi importante e sim, é verdade, tive de lhes conhecer as cores do seu calçado sempre que me pediam para olhar para o chão, mas por outro lado foi bom começar a perceber que mais uns anos e quando começar a trabalhar, existirá um patronato muito mais humilhante do que estes colegas, apenas mais velhos.
As praxes surgiram há alguns séculos com um objetivo totalmente diferente do que existe hoje, mas sempre com os mesmos métodos. No que toca à tradição considero que esta não deve acabar, mas sim adaptar-se aos direitos e deveres de todos os intervenientes nas praxes académicas. Agora, no momento em que cada vez mais ouvimos gritos para tentar acabar com as praxes, espero que os gritos das associações académicas sejam muito mais intensos. No entanto, existir um órgão nacional regulador das praxes também seria proveitoso, para que todos os alunos suportem as praxes e, assim, se adaptem da melhor maneira, pois um dos objetivos das praxes é a adaptação e integração a tudo o que existe de novo para os adolescentes que ingressam no Ensino Superior. Quando falamos em escolas básicas e secundárias, considero que as praxes nestas escolas sejam totalmente abolidas, pois são conduzidas por menores sem qualquer orientação.
A resiliência adquirida nas praxes é, sem dúvida, um canto académico que conduz a uma melhor integração e adaptação à maior mudança na vida de um aluno até esta etapa do seu percurso. Dura praxis, sed praxis - "A praxe é dura, mas é a praxe" é um dos lemas das praxes académicas de muitas universidades do nosso país e acrescento: “a praxe é dura, mas é a praxe” que, respeitando, faz todo o sentido existir.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Carta de Suicídio
Matei-me. Agora dizem-me na rua que fiz mal, que tinha tanto para viver… Mais uma vez tudo contra mim. Eu matei-me porque nunca ninguém estava de acordo comigo, e depois de morrer continua tudo na mesma. É demais. A minha vida foi uma limonada com muito pouco açúcar. Ainda hoje me arrepio e fecho os olhos para conseguir engolir tudo o que me matou. Porque eu não me matei, os outros é que me mataram, o que é diferente. Só espero que tenham lido a carta que lhes deixei lá na Terra, estava muito bem escrita, inspirei-me para escrever a minha carta de suicídio…
Quis deixar bem claro porque me vim embora, sim, porque esta viagem está a ser agradável, só não sei para onde vou, mas qualquer coisa será melhor do que aquele mundo impróprio para habitar. Tive momentos de felicidade, é verdade, mas ou estava embriagado ou tinha ganho algo nas raspadinhas que comprava todos os dias e, de vez em quando, lá recebia algum dinheiro. Não deixei de referir todos os pormenores acerca da minha vinda para este mundo. Disse inclusive que até a minha mãe merecia que eu me matasse. Tendo uma mãe facilmente influenciável, o que esta ouvia na rua considerava verdade, e isso assustava-me. Entretanto, já não tinha uma mãe tinha um inimigo. Eu não me importo com o que os outros pensam ou dizem, quando é mentira quase sempre ignoro, mas tenho gosto que pensem o que é verdade. Dizem que “há gostos para tudo”e eu tenho este gosto de querer que as pessoas pensem o que é verdade. Normalmente, a população não pensa, e quando pensa é mentira. Não tenho que mostrar nada a ninguém, sempre tive muito orgulho, mas quem me vê tem que ver a verdade que existe e não o que é mentira. Nunca escondi nada, pois esconder só aumenta a mentira, mas veja-se, se é difícil a minha mãe acreditar em mim, imagine-se as outras pessoas.
A minha carta de suicídio começava assim:
“ Antes de mais, não pensem que alguém me matou, pois isso é mentira. Embora eu tivesse poucos amigos, e muitos inimigos me desejassem ver morto, ninguém me matou. Não podia dar esta oportunidade a quem já tanto de mata dia para dia, por isso decidi matar-me. Não pensem que foi doloroso ao pé do que eu sofri durante toda a minha vida. Ao meu pai mataram-no e fizeram o que queriam dele, quanto a mim fizeram o que bem queriam, mas não me mataram.
À minha mãe quero dizer que agora não vale a pena chorar. Chorar a rir devia ela fazer se não acreditasse naquelas mentiras todas que lhe diziam sobre mim. Dedico este suicídio a todos os que me odiaram. Àqueles que me fizeram sentir com um nó na garganta quando não sabia o que dizer, àqueles que me fizeram sentir um tornado na barriga quando me atacaram com mentiras impiedosas e mais, quando sabiam que elas o eram, àqueles que me esmagaram o coração quando falavam do meu pai como se de um delinquente se tratasse.” O meu pai dizia muitas vezes e com toda a razão, “as pessoas da nossa família são tão boas como más, isto está provado com os nossos antepassados e, como tu sabes, nós somos muito bons para quem nos faz bem”, eu concordava completamente, eu sentia-o. Eu era exactamente como meu pai, tínhamos uma personalidade muito forte e, creio, que isso não chocasse bem com outras personalidades parecidas. A minha cabeça durante anos era como uma poça de água que era violentamente dispersa quando um carro lhe passava por cima. E passaram por cima de mim vezes sem conta, dispersaram a minha cabeça centenas de vezes até se sentirem saciados.
Continuando com a minha carta de suicídio:
“Eu não era uma pessoa feia e isso fez com que tivesse algumas relações com muitas mulheres – nunca ao mesmo tempo, fique claro – e talvez este seja o único ponto em que as pessoas acertavam sobre mim, realmente, as relações a dois que eu tive não eram poucas. Mas a minha sorte até com mulheres estava arruinada, a maior parte só me extorquia prendas e dinheiro, outras pensavam que eu era seu empregado e outras traíram-me mil vezes até eu dar por isso. Cheguei a matar dois homens por causa disso, admito. Às mulheres nunca lhes toquei violentamente. Agora que escrevo reparo que até tenho jeito para escrever cartas de suicídio. Gostava de não me matar só para dizer às pessoas que tenho jeito para escrever o que elas me faziam.”
Na escola nunca fui bem-vindo. Era daqueles alunos que os professores diziam logo na aula de apresentação que “tinha uma cara que não enganava ninguém”. As notas não eram excelentes, mas também não eram más. No entanto, os professores insistiam sempre em me meter aos cuidados de uma psicóloga por causa do mau comportamento, mas a falta de compreensão por parte de todos também não ajudava em nada, os professores viam um mau aluno, os pais viam um mau filho, os meus patrões sempre viram um mau empregado, só os amigos verdadeiros é que quase sempre viram um bom amigo. Chego a pensar se o mal estava mesmo em mim, mas não acredito. Eu era bom, os meus amigos comprovavam isso mesmo!
Ainda me lembro de quando estive doente, tinha a minha saúde por um fio, os médicos diziam para eu ter calma que tudo se ia resolver, mas como deixei de acreditar nas pessoas isso custava-me a crer, contudo, eles tinham razão. Porém, nessa altura nem a minha mãe esteve ao meu lado a apoiar-me e a dar me conforto. Ali pairava eu numa cama de hospital, tão pálido que parecia ter o reflexo da bata dos médicos na minha cara.
A minha carta de suicídio não ficou por ali, para terminar ainda deixei bem claro que me matava de consciência limpa:
“Sei que a carpete não vai ficar muito limpa depois de eu me matar e, por isso, peço desculpa, mas podem ficar cientes que a minha consciência está, ao contrário da carpete, muito limpa. Jamais poderia querer uma morte dolorosa, assim dar-vos-ia razões para dizerem: “cá se fazem, cá se pagam”. Quero despedir-me com nobreza, com elegância, com subtileza, com tudo aquilo que nunca viram em mim e que eu sempre prezei em manter. Digo ADEUS, e um adeus custa sempre ouvir, pelo menos a mim custava. Odiava ouvir a palavra adeus, transmitia-me distância e frieza. E é com essas emoções que digo, bem alto, com a voz bem limpa e clara: ADEUS. Detestei conhecer-vos. A melhor das atenções: João Miguel.”
Não foi difícil, pensei que fosse pior. Agora aqui em cima (acho que estou em cima do que deixei na Terra) estou consciente disso. Matar-me fez-me bem. Ainda não me arrependi de o ter feito e quando convivia com aqueles seres desumanos arrependia-me de quase tudo o que fazia. As pessoas, por vezes, e muitas mais do que as que esperamos, têm o dom de nos fazer arrepender do que com tanta entrega fazemos.
Agora gostava de saber onde estou. Esta dúvida dá cabo de mim, mas se morri, como diziam lá na Terra, devo estar no paraíso ou no inferno, ou ainda, em nenhum destes locais. Não sei onde estou, sei que não estou na Terra, e isso dá-me uma felicidade enorme como nunca senti em espaços térreos.
Quis deixar bem claro porque me vim embora, sim, porque esta viagem está a ser agradável, só não sei para onde vou, mas qualquer coisa será melhor do que aquele mundo impróprio para habitar. Tive momentos de felicidade, é verdade, mas ou estava embriagado ou tinha ganho algo nas raspadinhas que comprava todos os dias e, de vez em quando, lá recebia algum dinheiro. Não deixei de referir todos os pormenores acerca da minha vinda para este mundo. Disse inclusive que até a minha mãe merecia que eu me matasse. Tendo uma mãe facilmente influenciável, o que esta ouvia na rua considerava verdade, e isso assustava-me. Entretanto, já não tinha uma mãe tinha um inimigo. Eu não me importo com o que os outros pensam ou dizem, quando é mentira quase sempre ignoro, mas tenho gosto que pensem o que é verdade. Dizem que “há gostos para tudo”e eu tenho este gosto de querer que as pessoas pensem o que é verdade. Normalmente, a população não pensa, e quando pensa é mentira. Não tenho que mostrar nada a ninguém, sempre tive muito orgulho, mas quem me vê tem que ver a verdade que existe e não o que é mentira. Nunca escondi nada, pois esconder só aumenta a mentira, mas veja-se, se é difícil a minha mãe acreditar em mim, imagine-se as outras pessoas.
A minha carta de suicídio começava assim:
“ Antes de mais, não pensem que alguém me matou, pois isso é mentira. Embora eu tivesse poucos amigos, e muitos inimigos me desejassem ver morto, ninguém me matou. Não podia dar esta oportunidade a quem já tanto de mata dia para dia, por isso decidi matar-me. Não pensem que foi doloroso ao pé do que eu sofri durante toda a minha vida. Ao meu pai mataram-no e fizeram o que queriam dele, quanto a mim fizeram o que bem queriam, mas não me mataram.
À minha mãe quero dizer que agora não vale a pena chorar. Chorar a rir devia ela fazer se não acreditasse naquelas mentiras todas que lhe diziam sobre mim. Dedico este suicídio a todos os que me odiaram. Àqueles que me fizeram sentir com um nó na garganta quando não sabia o que dizer, àqueles que me fizeram sentir um tornado na barriga quando me atacaram com mentiras impiedosas e mais, quando sabiam que elas o eram, àqueles que me esmagaram o coração quando falavam do meu pai como se de um delinquente se tratasse.” O meu pai dizia muitas vezes e com toda a razão, “as pessoas da nossa família são tão boas como más, isto está provado com os nossos antepassados e, como tu sabes, nós somos muito bons para quem nos faz bem”, eu concordava completamente, eu sentia-o. Eu era exactamente como meu pai, tínhamos uma personalidade muito forte e, creio, que isso não chocasse bem com outras personalidades parecidas. A minha cabeça durante anos era como uma poça de água que era violentamente dispersa quando um carro lhe passava por cima. E passaram por cima de mim vezes sem conta, dispersaram a minha cabeça centenas de vezes até se sentirem saciados.
Continuando com a minha carta de suicídio:
“Eu não era uma pessoa feia e isso fez com que tivesse algumas relações com muitas mulheres – nunca ao mesmo tempo, fique claro – e talvez este seja o único ponto em que as pessoas acertavam sobre mim, realmente, as relações a dois que eu tive não eram poucas. Mas a minha sorte até com mulheres estava arruinada, a maior parte só me extorquia prendas e dinheiro, outras pensavam que eu era seu empregado e outras traíram-me mil vezes até eu dar por isso. Cheguei a matar dois homens por causa disso, admito. Às mulheres nunca lhes toquei violentamente. Agora que escrevo reparo que até tenho jeito para escrever cartas de suicídio. Gostava de não me matar só para dizer às pessoas que tenho jeito para escrever o que elas me faziam.”
Na escola nunca fui bem-vindo. Era daqueles alunos que os professores diziam logo na aula de apresentação que “tinha uma cara que não enganava ninguém”. As notas não eram excelentes, mas também não eram más. No entanto, os professores insistiam sempre em me meter aos cuidados de uma psicóloga por causa do mau comportamento, mas a falta de compreensão por parte de todos também não ajudava em nada, os professores viam um mau aluno, os pais viam um mau filho, os meus patrões sempre viram um mau empregado, só os amigos verdadeiros é que quase sempre viram um bom amigo. Chego a pensar se o mal estava mesmo em mim, mas não acredito. Eu era bom, os meus amigos comprovavam isso mesmo!
Ainda me lembro de quando estive doente, tinha a minha saúde por um fio, os médicos diziam para eu ter calma que tudo se ia resolver, mas como deixei de acreditar nas pessoas isso custava-me a crer, contudo, eles tinham razão. Porém, nessa altura nem a minha mãe esteve ao meu lado a apoiar-me e a dar me conforto. Ali pairava eu numa cama de hospital, tão pálido que parecia ter o reflexo da bata dos médicos na minha cara.
A minha carta de suicídio não ficou por ali, para terminar ainda deixei bem claro que me matava de consciência limpa:
“Sei que a carpete não vai ficar muito limpa depois de eu me matar e, por isso, peço desculpa, mas podem ficar cientes que a minha consciência está, ao contrário da carpete, muito limpa. Jamais poderia querer uma morte dolorosa, assim dar-vos-ia razões para dizerem: “cá se fazem, cá se pagam”. Quero despedir-me com nobreza, com elegância, com subtileza, com tudo aquilo que nunca viram em mim e que eu sempre prezei em manter. Digo ADEUS, e um adeus custa sempre ouvir, pelo menos a mim custava. Odiava ouvir a palavra adeus, transmitia-me distância e frieza. E é com essas emoções que digo, bem alto, com a voz bem limpa e clara: ADEUS. Detestei conhecer-vos. A melhor das atenções: João Miguel.”
Não foi difícil, pensei que fosse pior. Agora aqui em cima (acho que estou em cima do que deixei na Terra) estou consciente disso. Matar-me fez-me bem. Ainda não me arrependi de o ter feito e quando convivia com aqueles seres desumanos arrependia-me de quase tudo o que fazia. As pessoas, por vezes, e muitas mais do que as que esperamos, têm o dom de nos fazer arrepender do que com tanta entrega fazemos.
Agora gostava de saber onde estou. Esta dúvida dá cabo de mim, mas se morri, como diziam lá na Terra, devo estar no paraíso ou no inferno, ou ainda, em nenhum destes locais. Não sei onde estou, sei que não estou na Terra, e isso dá-me uma felicidade enorme como nunca senti em espaços térreos.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Uma poça de mel
“ … Falam do amor como uma espécie de hormona do crescimento, esquecendo que não é verdade que o amor seja um sentimento. Muito menos um bom sentimento, daqueles a que se recorre como se com ele se colorisse todo o universo em tons de pastel. O amor é, antes, uma consensualidade de sentimentos (aquilo que duas pessoas que se comovem trocam sem precisarem de saber como ou porquê) ” começo a escrever balançado por um excerto da obra “Chega-te a mim e deixa-te estar” de Eduardo Sá. Como sempre, comungo a opinião deste meu mestre e sendo assim tenho que lembrar mais um dos problemas do mundo: a falta de partilha de sentimentos verdadeiros, gestos ternurentos, palavras sérias, sonhos amplificados.
As pessoas devem mesmo pensar que tudo o que lhes pertence e lhes dá vida só é recordado se for bem guardado dentro delas, não entendem que é compartilhando que se forma vida, que se forma amor. Porque viver é amar. Considero que na escola temos amado muito pouco. O local onde mais se deve amar, ou melhor, partilhar, por exemplo, conhecimentos, está doente… Precisa de cuidados intensivos, não é caso para dramatizar, mas é caso para começar a ter muito cuidado com o contágio.
A ideia que a vida é tão efémera devia estar presente nos nossos dias para não complicarmos tudo a pensar em problemas que parecem exercícios acrobáticos inimagináveis de fazer. Passamos os nossos dias a esmagar o tempo, a desperdiçá-lo com tudo menos com o importante. Precisamos de dias verves, cheios de paixão, sorrisos, exageros, choques, surpresas. Tudo isto sem ilusão nenhuma, é a consciência que nos pode levar a sentir o quão bom é tudo o que nos rodeia. Não me admiro que dia menos dia se instaure uma ideia de carência que nos leve a implorar o que realmente precisamos. Seria de louvar começar a substituir o “Procura-se: CASA” por “Procura-se: ACONCHEGO”, ou por “Procura-se: ABRAÇOS”, ou até mais completo por “Procura-se: Alguém dador de AMOR”… Difícil seria encontrar a palavra “ofereço”, porém talvez alguém vá longe demais para poder ficar bem perto do que deseja.
Falta valorizarem-nos em tudo o que somos e fazemos, pois isso contribuía para que tudo fosse melhor e para que os “adeus” diminuíssem. Falta respirar quando dizemos um “adeus”. Falta abraçar quando temos que dizer “adeus” e não conseguimos. Falta arrojar o corpo nu pelo chão quando, chorando, dizemos “adeus”. Falta deixar de dizer “adeus”… Tantos põem o valor longe e tão poucos, de perto, e sem dizer “adeus”, valorizam. Um “adeus” é uma negação à linguagem que deve ser mantida de forma coesa para que não se torne um obstáculo ao conhecimento … Só a linguagem que vem do coração consegue ser verdadeira e sentida por nós.
Estamos na idade da força de libertação, não a podemos recusar. Cabe aos adultos não censurar cada dia da nossa vida de adolescentes. Cada dia de loucura que chega ao coração de todos nós guardando tudo o que mais tarde queremos recordar com um dos maiores prazeres, sem dizer “adeus” ao passado, pois recordar é viver.
Sem querer dizer adeus e querendo libertar-me como um louco lúcido, peço que se libertem e que por momentos sejam uma poça de mel. Exageradamente doce e liberta como qualquer poça…
Se vos sentir, sintam-me!
As pessoas devem mesmo pensar que tudo o que lhes pertence e lhes dá vida só é recordado se for bem guardado dentro delas, não entendem que é compartilhando que se forma vida, que se forma amor. Porque viver é amar. Considero que na escola temos amado muito pouco. O local onde mais se deve amar, ou melhor, partilhar, por exemplo, conhecimentos, está doente… Precisa de cuidados intensivos, não é caso para dramatizar, mas é caso para começar a ter muito cuidado com o contágio.
A ideia que a vida é tão efémera devia estar presente nos nossos dias para não complicarmos tudo a pensar em problemas que parecem exercícios acrobáticos inimagináveis de fazer. Passamos os nossos dias a esmagar o tempo, a desperdiçá-lo com tudo menos com o importante. Precisamos de dias verves, cheios de paixão, sorrisos, exageros, choques, surpresas. Tudo isto sem ilusão nenhuma, é a consciência que nos pode levar a sentir o quão bom é tudo o que nos rodeia. Não me admiro que dia menos dia se instaure uma ideia de carência que nos leve a implorar o que realmente precisamos. Seria de louvar começar a substituir o “Procura-se: CASA” por “Procura-se: ACONCHEGO”, ou por “Procura-se: ABRAÇOS”, ou até mais completo por “Procura-se: Alguém dador de AMOR”… Difícil seria encontrar a palavra “ofereço”, porém talvez alguém vá longe demais para poder ficar bem perto do que deseja.
Falta valorizarem-nos em tudo o que somos e fazemos, pois isso contribuía para que tudo fosse melhor e para que os “adeus” diminuíssem. Falta respirar quando dizemos um “adeus”. Falta abraçar quando temos que dizer “adeus” e não conseguimos. Falta arrojar o corpo nu pelo chão quando, chorando, dizemos “adeus”. Falta deixar de dizer “adeus”… Tantos põem o valor longe e tão poucos, de perto, e sem dizer “adeus”, valorizam. Um “adeus” é uma negação à linguagem que deve ser mantida de forma coesa para que não se torne um obstáculo ao conhecimento … Só a linguagem que vem do coração consegue ser verdadeira e sentida por nós.
Estamos na idade da força de libertação, não a podemos recusar. Cabe aos adultos não censurar cada dia da nossa vida de adolescentes. Cada dia de loucura que chega ao coração de todos nós guardando tudo o que mais tarde queremos recordar com um dos maiores prazeres, sem dizer “adeus” ao passado, pois recordar é viver.
Sem querer dizer adeus e querendo libertar-me como um louco lúcido, peço que se libertem e que por momentos sejam uma poça de mel. Exageradamente doce e liberta como qualquer poça…
Se vos sentir, sintam-me!
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
Outro dia para substituir este.
- Três shots pago eu.
- Mais cinco shots dos fortes, desta pago eu… E Chegamos ao final da noite a pedir só um, mas só um, impulso para poder libertar todo o álcool que temos dentro de nós. Mas recuando umas horas, antes de chegar à hora de pedir o impulso, a noite é nossa, reinamos sem qualquer limitação espacial ou temporal. E isso é bom. E com alguma sorte, às vezes estas noites fazem-nos bem, são uma massagem corporal que liberta todas as toxinas e mais algumas que temos acumuladas. Não nos podemos esquecer é que absorvemos outras tantas toxinas e não só que não são, propriamente, saudáveis, mas que, com termo e medida, fazem parte da vida.
Temos que estar sempre disponíveis para as oportunidades que a vida nos dá, e aproveitar uma noite com amigos é uma oportunidade muito boa, e muito poucas razões existem para que se diga “não” a uma oportunidade como esta. A vida está para quem está para ela, disso ninguém me tira a certeza. A diversão é tão, ou mais, precisa, do que o trabalho e o descanso. Embora, para que o trabalho fique bem feito, até o descanso é mais importante.
No entanto, depois de uma grande noite, existe uma grande ressaca. Indo ao dicionário, reparo na definição desta palavra: “1. fig. Falta de estabilidade 2. Mal-estar em consequência do consumo de bebidas alcoólicas ou de drogas.” Quanto à falta de estabilidade faz algum sentido, mas não no dia a seguir à grande noite, mas sim, na grande noite. Pois na noite da diversão, com muito álcool à mistura, a nossa estabilidade vai-nos faltar de certeza. Parece que as placas tectónicas vão nos levar para outra parte do planeta e exercem sobre nós uma força que não nos permite manter de pé.
Dor de cabeça, má disposição, uma sede louca, uma enorme vontade de silenciar o mundo e de reduzir a luminosidade que incomoda qualquer olhar, ódio há palavra “álcool”, fraqueza, dificuldade de concentração, pois só conseguimo-nos concentrar numa boa almofada, são os sintomas que sinto quando estou de ressaca. É mau? É, sem dúvida, às vezes, custa a curar, outras vezes não é preciso muitos cuidados. Contudo, quando estamos com uma ressaca forte dava jeito poder activar o vento, para que este levasse a pessoa que durante a ressaca se apoderou de nós. É que, para todos os efeitos, parecemos outra pessoa, outro corpo, outra mente. Nestes dias, não podem exigir muito de nós. Os sorrisos são quase todos forçados. Há momentos em que o sorriso não dá para mais e tem de ser suave.
A vida dá tudo para a que possas entender. Há quem demore mais tempo a perceber o que a vida lhe estar a dar, mas quem me preocupa é quem nunca chega a perceber o que a vida lhe dá. Tenho pena dessas pessoas. Lamento.
Há dias em que as ressacas são importantes, para olharmos de outra forma para a vida, com mais calma, com mais moderação e, infelizmente, também com algum enjoo que faz-nos ver que a vida não é feita de histórias de encantar.
Há pessoas que parece que estão sempre de ressaca. Há pessoas que fazem questão de inventar ressacas de tudo o que lhes acontece na vida. Há dias em que as pessoas não deviam sequer de sair à rua. Há dias em que a vontade é de pedir outro dia para substituir este.
- Mais cinco shots dos fortes, desta pago eu… E Chegamos ao final da noite a pedir só um, mas só um, impulso para poder libertar todo o álcool que temos dentro de nós. Mas recuando umas horas, antes de chegar à hora de pedir o impulso, a noite é nossa, reinamos sem qualquer limitação espacial ou temporal. E isso é bom. E com alguma sorte, às vezes estas noites fazem-nos bem, são uma massagem corporal que liberta todas as toxinas e mais algumas que temos acumuladas. Não nos podemos esquecer é que absorvemos outras tantas toxinas e não só que não são, propriamente, saudáveis, mas que, com termo e medida, fazem parte da vida.
Temos que estar sempre disponíveis para as oportunidades que a vida nos dá, e aproveitar uma noite com amigos é uma oportunidade muito boa, e muito poucas razões existem para que se diga “não” a uma oportunidade como esta. A vida está para quem está para ela, disso ninguém me tira a certeza. A diversão é tão, ou mais, precisa, do que o trabalho e o descanso. Embora, para que o trabalho fique bem feito, até o descanso é mais importante.
No entanto, depois de uma grande noite, existe uma grande ressaca. Indo ao dicionário, reparo na definição desta palavra: “1. fig. Falta de estabilidade 2. Mal-estar em consequência do consumo de bebidas alcoólicas ou de drogas.” Quanto à falta de estabilidade faz algum sentido, mas não no dia a seguir à grande noite, mas sim, na grande noite. Pois na noite da diversão, com muito álcool à mistura, a nossa estabilidade vai-nos faltar de certeza. Parece que as placas tectónicas vão nos levar para outra parte do planeta e exercem sobre nós uma força que não nos permite manter de pé.
Dor de cabeça, má disposição, uma sede louca, uma enorme vontade de silenciar o mundo e de reduzir a luminosidade que incomoda qualquer olhar, ódio há palavra “álcool”, fraqueza, dificuldade de concentração, pois só conseguimo-nos concentrar numa boa almofada, são os sintomas que sinto quando estou de ressaca. É mau? É, sem dúvida, às vezes, custa a curar, outras vezes não é preciso muitos cuidados. Contudo, quando estamos com uma ressaca forte dava jeito poder activar o vento, para que este levasse a pessoa que durante a ressaca se apoderou de nós. É que, para todos os efeitos, parecemos outra pessoa, outro corpo, outra mente. Nestes dias, não podem exigir muito de nós. Os sorrisos são quase todos forçados. Há momentos em que o sorriso não dá para mais e tem de ser suave.
A vida dá tudo para a que possas entender. Há quem demore mais tempo a perceber o que a vida lhe estar a dar, mas quem me preocupa é quem nunca chega a perceber o que a vida lhe dá. Tenho pena dessas pessoas. Lamento.
Há dias em que as ressacas são importantes, para olharmos de outra forma para a vida, com mais calma, com mais moderação e, infelizmente, também com algum enjoo que faz-nos ver que a vida não é feita de histórias de encantar.
Há pessoas que parece que estão sempre de ressaca. Há pessoas que fazem questão de inventar ressacas de tudo o que lhes acontece na vida. Há dias em que as pessoas não deviam sequer de sair à rua. Há dias em que a vontade é de pedir outro dia para substituir este.
Transpiração Mental
Dou início ao blogue que terá de sentir a minha transpiração mental quando eu bem entender. Não se trata de um comportamento autoritário, trata-se sim, de uma vontade de demonstrar ao mundo que o cheiro deste tipo de transpiração é bem melhor que o cheiro da transpiração corporal.
Esta não nos põe de braço no ar e tentar cheirar a axila. Esta não nos causa o transtorno de termos que mudar de roupa tantas vezes. Esta é a transpiração que faz falta. Serei muito assíduo na publicação de conteúdos linguísticos para que não deixem de sentir este odor.Não sei se estas transpirações têm semelhanças, contudo, espero um dia que esta dúvida me ponha transpirar mentalmente.
Bem-haja.
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