sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Amor é tudo mais solidariedade.

Quantas vezes ouvimos “A língua portuguesa é muito traiçoeira”? Quantas vezes damos um significado errado a determinada palavra? Quantas vezes uma palavra tem inúmeras conotações, umas vezes positivas e outras tão negativas? Quantas vezes interpretam de uma forma errada o que dizemos? Tantas questões que só afirmam a bem dita frase feita “a língua portuguesa é muito traiçoeira”. Diariamente, somos levados à confusão entre palavras tantas vezes repetidas de uma forma errada e que só com alguma atenção se pode perceber os seus significados.
Analisando as definições de amor e de solidariedade encontro certas questões que me inquietam. Antes de mais, nunca a palavra “amor” pode equiparada à palavra “solidariedade”. Recordo-me de uma definição de solidariedade, da minha professora de Moral, que dizia que solidariedade é “dar sem querer receber nada em troca”. Posto isto, alguma vez a definição de “amor” pode ser similar à do termo “solidariedade”? Claro que não! Voltando a citar Eduardo Sá, “ … Falam do amor como uma espécie de hormona do crescimento, esquecendo que não é verdade que o amor seja um sentimento. Muito menos um bom sentimento, daqueles a que se recorre como se com ele se colorisse todo o universo em tons de pastel. O amor é, antes, uma consensualidade de sentimentos (aquilo que duas pessoas que se comovem trocam sem precisarem de saber como ou porquê) ”. Atento à palavra “trocam”. Amor é, sem dúvida, o que duas pessoas, que se sentem atraídas, fazem para se conquistar, por isso, é importante a “permanente conquista”, pois só assim se consegue manter esta “consensualidade de sentimentos”. A conquista envolve certamente surpresa, exagero, loucura, espírito que diz “é por ela e pelo sorriso dela”, lágrimas, abraços, beijos, pulos, felicidade… E uma quantidade enorme de comportamentos levados a cabo pelo turbilhão de sentimentos/ideias partilhados.
O amor é um dos grandes responsáveis pelo que move o mundo, a par da beleza e do dinheiro. A conquista ou a falta dela, que envolve o amor, é a grande fundadora dos homens e das mulheres que compõem o mundo. Um homem adora sentir-se homem, e as mulheres têm quase toda a responsabilidade para que isso aconteça. Não creio que o contrário seja verdade, daí poder afirmar que os homens precisam das mulheres para serem o que afirmam ser.
Um ser solidário nunca pode admitir que não quer receber nada em troca. O ser humano necessita de sustento emocional e, por isso, é solidário. Não podemos afirmar que receber algo em troca seja sinónimo de receber algo material. Assim, ser solidário é, antes de alguém que não olha para o que dá, é alguém que quer receber tanto um sorriso, como um abraço, ou apenas um “obrigado”, ou seja, não pede mais do que gratidão. Falta tanto sentido de gratidão às pessoas que conheço…
Um dicionário pode ser um simplista no que toca à definição de amor, mas muitas vezes, é assim que devemos de ver o amor: de uma forma muito simples. “Amor s. m. 1. Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracção. 2. Sentimento intenso de atracção entre duas pessoas.   3. Ligação afectiva com outrem, incluindo geralmente também uma ligação de cariz sexual. 4.  Disposição dos afectos:  para querer ou fazer o bem a algo ou alguém. 5.  Grande dedicação ou cuidado. “. Por outro lado, temos “Solidariedade s. f.
1. Qualidade do que é solidário. 2. Dependência mútua. 3. Reciprocidade de obrigações e interesses. 4. Direito de reclamar só para si o que se deve a todos.”
O ponto número dois da definição de solidariedade pode levar-me à definição de amor, mas de uma forma pejorativa. Quando no amor existe dependência mútua, à partida, não estamos a falar de amor, mas sim de uma paixão doentia. Augusto Cury afirma que “A paixão restringe o mundo dos apaixonados, confina-nos num mundo pequeno e particular. Os amigos diminuem, os projectos contraem-se, as relações sociais ficam escassas, a alegria evapora-se, o interesse pelo crescimento profissional perde o deleite. O amor inteligente expande o universo dos amantes, multiplica os amigos, os sonhos as oportunidades, o crescimento pessoal.” Deixar de nutrir o encantamento pela nossa vida por causa de um amor, ou melhor, de uma paixão, é dizimar duas pessoas de uma vez só. A velha máxima, “não trate como prioridade quem o trata como opção” faz muito sentido no que toca a paixões que no final nos levam a concluir que a ingratidão está viva, mas não se recomenda, pois os estragos são irreversíveis. Não fosse viver, desenhar sem borracha. 
Não sei se é inquestionável o valor das palavras, sei que são utilizadas de uma forma banal. Se como diria o poeta “as palavras estão gastas” ainda bem, eu adoro gastá-las, mas bem gastas. Já que é para desperdiçar que se o faça bem feito. Na hora de falar que se pense o que se diz, pois o sentimento que precede as palavras é muito mais determinante do que antecede essas mesmas palavras. Complicamos e tornamos “traiçoeiras” as palavras que são indispensáveis e inevitáveis. Que aumentem as conotações, mas que se aumente, em grande escala, a inteligência que permite interpretar o amor.
Amor é tudo mais solidariedade. Solidariedade é tudo menos amor.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Conto (à) LUZ

Queria contar a luz e não posso. Há dias em que a luz me encadeia de tal forma que se pudesse apaga-la, fá-lo-ia. Será a luz daquele candeeiro igual à luz que me ilumina na rua durante o dia? Acho que não. A luz não é igual e não se distingue apenas do escuro, existem diferentes tipos de luzes. Só não sei se existem vários tipos de escuridão, mas por o que se diz por aí a escuridão é diferente de pessoa para pessoa, e talvez seja, a maldade também não é igual para todos. Só conseguimos ser amigos de alguém até ao momento em que vimos a sua maldade.
A minha filha chama-se Luz e é o meu orgulho. Ilumina-me. Vai comigo de manhã para a escola e pergunta-me se a luz do sol não me encadeia enquanto vou a conduzir, respondo que sim, obviamente, mas reparo que a minha filha repara em todo o tipo de luzes e no que elas nos afectam. Na noite a Luz faz-me querer que é mais uma estrela daquelas que brilha no céu. Não sei se é por ser milha filha, mas deve ser.
A luz natural é tão essencial. A luz do sol e em todos os seus reflexos torna os dias e as noites em locais de pura sensação. No verão o sol irradia o dia da melhor forma. Torna-nos o dia alegre, verve, e optimista de uma boa vida. Ainda no verão, as sombras são o silêncio da luz do sol. Como na música o som é tão importante como o silêncio, na luz, acontece o mesmo, a sombra é tão importante quanto a luz. Na noite do verão as estrelas brilham como se não houvesse amanhã, a lua chama a atenção e os nossos corpos brilham tanto como de dia. A luz no inverno não é menos importante. É mais discreta e mais ténue, mas não menos natural. A sombra das árvores não existe, todos os espaços e ambientes são sombras dos dias menos bons, mas também, dos dias em que devíamos de pensar na nossa vida, e isso não se pode encaixar nos dias menos bons. Os dias em que estamos na sombra também são bons dias. Nas noites de inverno nem sombras existem, existem sim as ressacas das sombras. Estranho? Talvez, mas a fúria e a ausência de luz nas noites de inverno faz com que o pior das sombras da nossa vida se transforme, duplamente, em realidade.
A luz artificial é como a sombra dos dias, ou seja, também é importante para nós. Substitui, não na perfeição, a luz natural. Artificial como a verdade, a luz dá-nos só o que nós precisamos no momento. Jamais, algo artificial sustentará verdadeiramente o nosso ego. Durante o dia, a luz artificial chega onde a luz natural não consegue, mas uma janela aberta para a luz do dia entrar não tem valor comparando com a luz do candeeiro de secretária. A luz artificial é dos melhores elementos de protecção que existe: todas as luzes dos veículos que circulam nas vias rodoviárias, todas as luzes que sinalizam e coordenam estes mesmos veículos, os faróis que indicam aos barcos onde está a costa, e até em muitos reflectores, se contempla a luz artificial e a sua fundamental função para a organização da circulação humana.
A reflexão da luz natural não a torna artificial. Como o meu espelho não altera o que eu sou. Embora, igualmente como o meu espelho, que só mostra uma face minha, a reflexão da luz mostra apenas uma face da luz e, consequentemente, ilumina-nos mal, como o espelho que mostra muito mal o que sou.
            A luz logo de manhã faz me crer que o dia vai ser magnífico. À noite às estrelas dão-me a certeza que a noite é magnífica. É estranho como a escassa luz à noite me dá muito mais certeza do que a luz do dia. Muitas vezes não precisamos de muita luz para sermos alumiados, por vezes, basta a noite afirmar a natureza, que com ela vem atrelada, e a noite acerta em cheio no dia, acabando com o mesmo.
            A minha filha adora a noite, e é estranho, pois tendo ela apenas 6 anos não tem qualquer medo do escuro e não é atingida por todos os medos que assombram as crianças da idade dela, e muitas vezes, até os mais crescidos. Sempre mostrei à pequena infante que a noite é tão importante como o dia. Fiz muitos passeios com ela, apenas com a luz da lua e o brilho dos nossos olhos. Não sei se por coincidência ou não a minha filha chama-se Luz. E, é óbvio, que, sempre que posso, conto-lhe um conto sobre luz. Um conto sobre o seu nome, um conto à luz.